Entrevista: Mauricio Soares, diretor A&R Sony Music
17/02/2017

O site Sony Music Gospel, em comemoração aos 7 anos do projeto de música cristã na filial brasileira da Sony Music, resolveu entrevistar o diretor artístico e idealizador do projeto para falar das experiências até aqui e também de sua análise sobre o mercado da música, o segmento gospel e também sobre as novidades da gravadora para os próximos períodos. Confira a seguir, nosso papo com Mauricio Soares, Diretor A&R da Sony Music.

01 – Em 2010 a Sony Music iniciou o projeto de música gospel no Brasil. Conte para nós como foi este processo de implantação do projeto e quais seus maiores desafios.

Recebi o convite da Sony Music no fim de 2009 com a incumbência de começar um projeto a partir do zero, dentro de uma empresa sem a menor cultura do segmento gospel e com a responsabilidade de trazer os resultados para que o próprio projeto tivesse sua continuidade em anos seguintes. Ou seja, foi um tremendo desafio! O que me motivou foi o fato de fazer o projeto da forma com que eu sempre sonhei trabalhar. Mesmo promovendo algumas revoluções, enormes transformações e principalmente, resultados espetaculares pelas gravadoras por onde passei, sempre esbarrava em questões internas que me impediam de seguir com o projeto na forma que eu entendia como o correto. Em praticamente todas estas empresas eu chegava a um ponto em que simplesmente me acomodava pelos resultados alcançados até então, ou (como aconteceu sempre!) tranquilamente arrumava minhas coisas e pedia para sair do projeto.  Nunca me conformei com a estabilidade … sempre busquei ter prazer em meu trabalho e isso inclusive gerou para mim uma imagem junto ao mercado de que eu mudava constantemente de empresa, mas na verdade não era bem assim, eu simplesmente estabelecia minhas metas, alcançava-as e depois decidia por seguir um novo objetivo já que as empresas até então não me permitiriam nada muito além. 

Mas voltando à Sony Music, comecei oficialmente o projeto com apenas uma sala, uma linha telefônica e uma mesa de trabalho. A partir daí foi muito trabalho, muitas ligações, reuniões, viagens e 2 anos depois conseguimos atingir algumas importantes metas que estavam estabelecidas para um período de 5 anos. Ou seja, conseguimos tornar o projeto de música gospel uma realidade na Sony Music mesmo a despeito de enormes dificuldades, desconfiança e até algumas oposições do mercado. Hoje chegamos ao sétimo ano do projeto com a sensação de que Deus cuidou de nós desde o primeiro dia. Somos reconhecidos pelo mercado e pelo público como a gravadora mais bem estabelecida no cenário digital, com um cast de qualidade e que contribuiu para o crescimento e melhora da música gospel produzida no Brasil.

Os desafios foram muitos. Convencer os artistas sobre nosso projeto. Convencer a própria Sony Music da viabilidade do projeto. Entender e assimilar a cultura de uma companhia multinacional. Traçar as estratégias e realizá-las mesmo com uma equipe super enxuta. Enfim, poderia listar muitos desafios que tivemos, mas sempre prefiro destacar nossas conquistas e resultados e aí temos muito a comemorar, sem dúvida alguma!

02 – A Sony Music destaca-se por ser a líder no segmento gospel na área digital. Os artistas da gravadora também são referência em projetos no mundo digital por seus números e alcance. Como se deu esta transição entre o formato físico e digital e qual tipo de trabalho a gravadora realizou ou vem realizando junto ao cast para este aprimoramento digital?

Desde que entrei na gravadora, lá em 2010, eu ouço falar sobre mercado digital. Quando entrei na Sony Music, as vendas digitais correspondiam talvez a não mais do que 5% de nosso faturamento. E desde então venho estudando, me aperfeiçoando e aprendendo sobre as ferramentas, plataformas, estratégias e resultados no universo digital. Nisto sou um privilegiado porque trabalhar numa empresa multinacional me proporcionou ter acesso ao que há de mais atual em termos de informações, treinamentos e tecnologias. Confesso que hoje, minha mente é 100% digital e venho me preparando para este momento faz alguns anos. 

Profissionalmente vivi a transição do LP para o CD e agora do CD para o Streaming e esta última transição considero muito mais radical e intensa do que a anterior porque ela muda toda uma cultura, passando do sentimento de posse para o de acesso e, isto mudou radicalmente todos os processos da indústria da música no mundo. Para que nossos artistas acompanhassem estas novidades estamos há alguns anos em palestras e treinamentos. Lembro-me que há uns 3 anos atrás fizemos um treinamento com nossos artistas e a reação deles em meio às apresentações era de que estavam em outro planeta. Era notório o desconhecimento deles sobre a matéria. Já em 2016 fizemos um mega treinamento com a presença de executivos das plataformas digitais e o nível de participação dos artistas foi incrível! Este é um resultado que pessoalmente me traz muita satisfação. Observar o distanciamento dos artistas de nosso cast em comparação com outros  profissionais do segmento me dá a clara sensação de que estamos formando profissionais de qualidade e integrados à nova realidade do mercado. 

03 – A Sony Music se destaca também por investir em jovens talentos. Nomes como Marcela Taís, Gabriela Rocha e mais recentemente Preto no Branco são apostas da Sony Music que hoje tornaram-se referência no mercado. Como é este trabalho de garimpar novidades?

Ao longo destes meus 27 anos trabalhando no meio gospel, boa parte deste tempo envolvido com a música, sempre fui muito aberto a buscar por novidades e jovens talentos. Artistas como Régis Danese, Thalles, Jamily, Gisele Nascimento, foram lançados por mim em diferentes épocas e gravadoras. Na Sony Music temos investido em jovens artistas já a partir  do segundo ano do projeto e hoje colhemos resultados destas apostas. Dias atrás estava analisando alguns números e resultados e pude constatar que entre os artistas de melhor performance na gravadora, especialmente no tocante ao digital, praticamente todos os artistas são jovens talentos que foram investidos por nós. E estes mesmo artistas hoje não são somente destaque entre nosso cast, mas também em nosso mercado como um todo. Nomes como Gabriela Rocha, André e Felipe, Priscilla Alcantara, Discopraise, Preto no Branco, Damares, Leonardo Gonçalves, Os Arrais e Marcela Taís, são referência em seus estilos musicais dentro do universo gospel na atualidade. Em 2016 o Preto no Branco foi o artista de maior destaque, inclusive sendo a canção mais executada nas FMs do segmento no país. Gabriela Rocha é a artista de maior número de views na VEVO entre o gospel no Brasil com mais de 180 milhões de visualizações. Já a cantora Damares destaca-se nos serviços de Ringbacktone junto às operadoras de telefonia móvel. Ou seja, boa parte destes artistas tiveram suas carreiras desenvolvidas pela equipe Sony Music e isso é um grande motivo de orgulho para todos nós!

04 – O sucesso do projeto de música gospel no Brasil serviu para chamar a atenção de outras filiais da gravadora na América Latina. Como é este processo de expandir além-fronteiras?

Confesso que uma das questões que me incentivou a iniciar o projeto numa multinacional foi a possibilidade de trabalhar em outros países, especialmente a América Latina. E logo em minha primeira convenção internacional onde pude apresentar em mais detalhes aos meus pares da Sony Music na América Latina, o interesse deles no que fazíamos no Brasil foi grande. Por diferentes motivos, os anos seguintes foram totalmente focados ao Brasil até que em 2014, recebi um convite da Sony Music Colômbia para passar um tempo com eles prospectando o mercado e as possibilidades por lá. Já em 2015 recebi um chamado de nossa co-irmã em Portugal e novamente fui trabalhar naquele país buscando oportunidades. E, em 2016, tive a honra de ir ao México para iniciar o projeto de música cristã naquele país, sendo que ali seria a base de todo o projeto na América Latina. O projeto do México já é uma realidade e hoje temos o maior artista do segmento cristão latino em nosso cast, o mega talentoso Alex Campos. Em breve, teremos mais 2 a 3 contratações entre os grandes nomes do mercado. Ou seja, já conseguimos exportar o modelo de nosso negócio e com isso acredito que abrimos um novo mercado aos artistas brasileiros. Vale lembrar que recentemente lançamos o projeto em espanhol de Aline Barros e nas próximas semanas lançaremos o álbum do DJ PV com participação de vários artistas latinos de referência. 

Hoje o projeto de música gospel está sendo desenvolvido na Sony Music Portugal de forma embrionária. Já na Sony Music México em parceria com a Sony Music Colômbia, Sony Music Central América & Caribe e, ainda pela Sony Music US Latin (dentro do território norte-americano e Porto Rico) o projeto segue com grandes expectativas e creio que em pouco tempo a gravadora será a maior do segmento na região.

05 – As plataformas de audio streaming no Brasil, em especial, estão muito antenadas à música gospel e ao público cristão. Recentemente o Spotify listou a música gospel brasileira entre os 10 estilos musicais de maior crescimento na plataforma. O Deezer conta com um curador de música gospel dedicado. Como você avalia este momento e as possibilidades junto às plataformas digitais?

Eu vejo todo este interesse e o trabalho que vem sendo desenvolvido pelas plataformas de audio streaming no Brasil junto ao meio gospel como algo fantástico! E creio que a Sony Music tem muito a ver com tudo o que estamos vivendo neste momento por aqui nesta área, afinal trabalhamos muito próximos com eles e temos apresentado todo este universo da música gospel. Também destaco o trabalho que os artistas estão realizando para contribuir na popularização das plataformas junto ao público. O crescimento de consumo de música  gospel no Spotify e Deezer certamente está chamando a atenção de todos, inclusive no exterior. O fato da Deezer contar com um curador de música gospel para o projeto é mais uma prova da força e relevância do segmento no país. 

Como já citei anteriormente, temos desenvolvido parcerias e iniciativas junto às plataformas digitais ao longo dos últimos anos. O resultado tem sido sensível e creio que muito em breve a música gospel será umas das 5 mais relevantes neste ambiente no Brasil. Temos muito potencial de crescimento e, de verdade, torço para que as outras gravadoras gospel entendam a importância desta nova mentalidade e que recuperem imediatamente o tempo perdido. Esta mudança é irreversível! O mercado da música mundialmente vem crescendo após anos e anos de queda em função do avanço do mercado digital. 

06 – O público gospel sempre foi mais conservador em aspectos relacionados ao consumo da música. A transição do físico para o digital segue em ritmo lento ou já é uma realidade no meio gospel brasileiro? Como você enxerga a relação entre o público gospel e as novas tecnologias?

Acho que de fato somos um pouco mais refratários a mudanças … talvez não a todas as mudanças, mas no tocante ao digital creio que vivemos um descompasso há alguns anos atrás e neste momento estamos correndo literalmente atrás do tempo perdido. E isso se aplica não somente às gravadoras do segmento ou ao público consumidor, mas também à própria classe artística. 

Seja entre o audio ou o video streaming vemos o crescimento dos artistas e projetos de música gospel. Se todos os artistas, mídias, formadores de opinião, gravadoras do segmento se empenharem em divulgar estes novos canais de consumo de música, creio que em breve o alcance será praticamente total. Percebemos que o cristão brasileiro é ávido pelas redes sociais (como em geral todo o povo brasileiro) e agora precisa também se ‘apaixonar’ pelo consumo de música através destas novas plataformas. 

 07 – Falando deste ano que se inicia, o que teremos de novidades, lançamentos, novos projetos?

Temos muitos projetos planejados para este ano. A grande novidade é que pela primeira vez na história teremos muito mais projetos sendo lançados exclusivamente nos formatos digitais do que nos formatos físicos tradicionais. Creio que a cada 10 lançamentos de nosso catálogo, teremos 8 projetos sendo lançados somente nas plataformas digitais. Isto é, sem dúvida, uma revolução. 

Mas falando de artistas e projetos, teremos novos singles, EPs e álbuns de artistas como Gabriela Rocha, Priscilla Alcântara, Os Arrais, Leonardo Gonçalves, Deise Jacinto, DJ PV, Cristina Mel, Preto no Branco, Damares, Nívea Silva, Nádia Santolli, entre outros. Enfim, vamos garantir que este ano seja mais um período de música gospel de qualidade!  

08 – O Sony Music Live foi mais uma iniciativa da gravadora que tornou-se referência para todo o mercado. Como você avalia o resultado das 2 primeiras temporadas do projeto e o que podemos esperar para este ano?

Já estamos indo para a terceira temporada do Sony Music Live, um projeto totalmente desenvolvido pela equipe gospel da Sony Music. Na segunda temporada tivemos não somente conteúdos gospel, como também seculares, o que comprova o sucesso de nosso projeto. Hoje estamos com mais de 250 milhões de views entre todos os episódios e isto é muito além do que imaginávamos no início do projeto. E é claro que estes números também chamaram a atenção da concorrência e especialmente no último ano vimos uma avalanche de Live Sessions e projetos similares ao nosso. De verdade, vejo esta tendência de forma muito positiva porque demonstra claramente que nossos projetos estão sendo bem avaliados e que de alguma forma estamos sendo referência para o mercado.

Na terceira temporada teremos episódios inéditos com Leonardo Gonçalves, Mariana Ava, Seo Fernandes, Soraya Moraes, Aline Barros, os Arrais, entre outros. Podemos garantir que há muitos projetos de qualidade a caminho e quero destacar um encontro incrível entre Leonardo Gonçalves, Tiago Arrais, Felipe Valente e Gabriel Iglesias que será um episódio dos próximos Sony Music Live 2017.

09 – O slogan da Sony Music é ‘música gospel de qualidade’ e esta é uma característica que parece bem presente nos projetos lançados pela Sony Music. Isto é uma questão primordial, uma meta que vocês estabelecem como inegociável? Aliado a isto, também percebemos  que o cast da gravadora é bastante eclético e que há projetos bastante ousados como o próprio Preto no Branco, Seo Fernandes, Gabriel Iglesias e Os Arrais. Fale-nos mais a respeito destas questões.

Aqui o mérito é todo dos artistas que compõem nosso cast artístico. Costumo dizer que como diretor artístico procuro interferir o mínimo possível no processo criativo de nossos artistas. Muitas das vezes vejo que os artistas se espantam com a liberdade que eles têm de trabalho aqui na Sony Music. Entendo que alguns vivenciaram experiências traumáticas de gravadoras que mutilaram e engessaram seus projetos artísticos, mas por aqui é justamente o inverso, ou seja, deixamos que ousem à vontade! E em função desta ousadia temos projetos de excelência como Leonardo Gonçalves, Salomão do Reggae, DJ PV, Estêvão Queiroga, Os Arrais, Priscilla Alcântara e tantos outros. Me lembro que Priscilla, por exemplo, fez questão de se certificar de que teria mesmo liberdade de trabalho em nossas conversas iniciais … eu falava que isso seria nosso padrão e ela me olhava assim, meio desconfiada … depois de um tempo, ela viu que era de verdade nossa forma de trabalho e ousou bastante, e como! (rs)

Em 2017 tem um projeto em especial que aposto muito e que será bastante ousado por diferentes motivos. O álbum “Graça, Tambor e Cordas” do baiano mega talentoso Seo Fernandes tem uma plástica toda própria. O disco é maravilhoso. As composições transbordam de poesia e os arranjos são brasilidade e baianidade em estado puro. Particularmente é um projeto que eu acredito muito e que certamente chegará ao mercado com enorme expectativa. Mesmo sendo uma proposta musical diferenciada, este projeto irá trazer um novo patamar ao nosso meio musical. Este será mais um projeto para reforçar nosso slogan, Sony Music, música gospel de qualidade!

10 – Para finalizar, algumas considerações?

Só quero agradecer à minha equipe de trabalho, aos profissionais que trabalham lado a lado conosco para que alcancemos todos estes resultados. Também quero agradecer pelos artistas que ao longo destes 7 anos contribuíram para que nosso projeto se destacasse e se tornasse modelo e referência, não só no Brasil como também no exterior. E por fim, agradecer aos pastores, mídias, lojistas e ao público em geral que curte nossos projetos e acompanha nosso trabalho! Valeu mesmo!